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NAS DIMENSÕES DO TEMPO: Capítulo - 1

Autor: Antonio Juvenil - Ano: 2002  

1 - A TEORIA

 

              Eram quase cinco da manhã e Hamilton Danton trabalhava obstinadamente revisando uma a uma as equações que regiam sua teoria. Logo mais à tarde, exatamente as 17:00 horas, o conselho científico daria um veredicto sobre o resultado de sua pesquisa. A aprovação da mesma seria um passo significativo para que Hamilton avançasse na segunda fase de seus estudos e fizesse uso do computador quântico da estação espacial Aurora 14. Com seus recursos avançados concluiria a parte prática da primeira experiência humana numa viagem pelo espaço tempo. Mas...

 

*     *     *

 

              No auditório do Instituto de Ciências era grande o alvoroço. A platéia exultante comentava sobre o desfecho da dissertação científica encerrada há poucos instantes. O evento de notável polêmica que atraíra, além de cientistas de diversas áreas, estudantes, a imprensa e demais curiosos sobre o assunto, tratava-se de uma teoria sobre viagem no tempo defendida pelo jovem físico Hamilton Danton.

 

Enquanto fizera uso da palavra, buscando ser convincente no seu discurso, Danton fora insistente em argumentar repetidas vezes sobre as questões primordiais de sua pesquisa. Dentre elas, destacava o estudo minucioso sobre as faculdades cognitivas da mente humana como o elemento essencial para o cumprimento do seu projeto científico. Fazia questão de ratificar que as propriedades mentais humanas monitoradas sob influencias da inteligência artificial, são passíveis de mobilidade no espaço-tempo. Isso, na prática, seria uma espécie de deslocamento temporal exclusivamente da consciência perceptiva humana. Sem os atributos da matéria, com o corpo em estado de suspensão, mentalmente, o homem vagaria por épocas diferentes como se assistisse a um filme vislumbrando cenas do passado ou do futuro.

 

Os membros do conselho científico ouviram atentamente cada detalhe e não fizeram qualquer objeção  durante a falação de Hamilton. No máximo manifestaram alguns cochichos entre os mais próximos, trocando opiniões que pareciam de pouca relevância. Com essa atitude, disfarçaram muito bem não deixando transparecer o pré-julgamento que faziam do audacioso manifesto intelectual. Porém, quando o membro chefe dos conselheiros iniciou sua oratória com o veredicto final sobre a matéria em debate, ficou evidente que a academia não reconhecia a consistência científica da teoria em questão. Viram-na como um estudo de qualidade engenhosa sem possibilidades de execução. E como se não bastasse, além da reprovação, foram claros em afirmar que os recursos tecnológicos do Instituto de Ciências, requisitados por Hamilton, não seriam disponibilizados. Julgaram que o projeto especulativo exposto ali era uma iniciativa totalmente de interesse e responsabilidade pessoal do seu criador. A prova definitiva de que Hamilton não teria qualquer apoio material ficou mais evidente quando foi negada a sua principal requisição; o direito de acessar CEES-23, o principal computador quântico da estação espacial Aurora 14. Sem ele todo o seu trabalho terminaria no papel. Uma obra morta sem a possibilidade de ser testada.

 

– Vocês não têm o direito de tratar minha pesquisa como algo trivial, – esbravejou Hamilton insatisfeito antes de se dar por vencido. – Está faltando interesse em analisar melhor o resultado final do meu trabalho. Somente um computador da natureza de CEES-23 e mais ninguém, está apto para diagnosticar se minha teoria tem coerência cientifica ou não.

 

            Como se aclamasse para o vazio, não obtendo qualquer resposta, Hamilton calou-se. Não ousou dizer mais nada. A dureza dos acadêmicos o derrotara. Pelo menos temporariamente, pensava considerando o plano capcioso que tinha em mente. Restava ir embora e fazer tudo a sua maneira.

 

            Expressando indiferença, interrompeu a projeção holográfica que ainda exibia as informações interativas de sua pesquisa. Na seqüência, como se seguisse um ritual, selecionou anotações e gráficos do documento que discursara e os guardou na pasta. Antes de sair voltou-se mais uma vez para a assembléia que também silenciara surpresa com sua atitude. Por um instante desejou dizer algo. As últimas palavras. Talvez um desabafo que revelasse o significado dos três anos dedicados a sua pesquisa agora relegada ao descrédito. Mas se conteve. Contemplou-os por mais alguns instantes e finalmente deixou o auditório sem ao menos se despedir. Usou a porta lateral. Assim não teria que enfrentar os olhares cépticos da maioria dos membros do conselho.

 

Continua: Capítulo 2 - O plano

 

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