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NAS DIMENSÕES DO TEMPO: Capítulo - 6

Autor: Antonio Juvenil - Ano: 2002  

6 - PERANTE CEES-23

 

“Isto é um luxo”, observou Hamilton, sentindo-se diminuto diante do poderoso aparato eletrônico. Nunca vira nada igual. Apreciava cada detalhe funcional do mega cérebro quântico. Dele partia todo o monitoramento e analises de viagens espaciais, tanto quanto, as comunicações para além do Sistema Solar a procura de vida inteligente em outros pontos longínquos do Universo.

 

– Agora é que vem a parte mais difícil. – Sussurrou para si mesmo, considerando que nunca operara um computador daquele nível. – Ainda bem que todos estão bastante concentrados na grande festa. Isto facilita muito para mim. De qualquer modo, não posso perder tempo. Devo retornar antes de darem pela minha falta.

 

Ao sentar-se na poltrona, na cabine interna, perante os instrumentos interativos que davam acesso aos serviços do computador, o sistema cobrou-lhe a senha verbalmente. Prontamente, Danton pronunciou cada dígito evidenciando um após o outro. Em seguida, colocou em torno da cabeça, o bracelete com os conectores auditivos juntamente com os sensores neurais. Por um instante, predominou uma sensação confusa em sua memória. CEES-23 estava interferindo e se ajustando as suas propriedades mentais. Alguns segundos depois, lentamente reabilitando-se, reorientando-se mentalmente, instruiu o computador a receber o programa que trouxera na célula digital. Mas, ao introduzi-la na unidade de leitura e mentalizar o comando de instalação, surpreendeu-se. instantaneamente, CEES-23 rejeitara o programa. Ao detectar que o mesmo era fora do padrão e estranho as suas funções, interagiu verbalmente alertando para que a operação fosse suspensa. Alguns requisitos ilegais iriam comprometer a lógica do sistema.

 

Sem dar ouvido ao alerta e forçosamente possuído por seu plano ambicioso, Hamilton, um perito em sistemas informatizados, pelo menos em computadores de configuração inferior, recorreu ao uso manual de comando. Na seqüência, fazendo alguns ajustes de configuração alcançou, finalmente o seu objetivo. Porem, por não conhecer em profundidade o raro computador que estava utilizando, errou irreversivelmente, ao requisitar operação fora de sua programação padrão. Com esta atitude, em menos de sete minutos interagindo com CEES-23, provocara alterações no processamento de dados. Os efeitos instantâneos foram os alarmes denunciando operação ilegal.

 

 “Preciso sair daqui”, pensou  instintivamente, tentando controlar a situação. “Mas como, se não estou conseguindo me livrar destes...”.

 

Hamilton lutava para retirar o bracelete frontal, mas estava travado. Como as abotoaduras fechavam-se automaticamente, talvez por fazer parte do sistema de segurança, CEES-23 impedia a abertura aprisionando-o. Insistiu por mais alguns instantes e desistiu. As imagens num dos monitores atraíra sua atenção. Mostrava cenas com a luta dos seguranças tentando abrir a trava eletrônica da porta pelo lado de fora. Insistiam impotentes. Com o uso da força não haveria como ultrapassá-la.

 

Bastante confuso, Danton, lamentava quanto ao erro primário que cometera. Não imaginara, jamais, que CEES-23 tivesse um sistema de segurança com níveis tão sensíveis. De nada adiantara o cuidado em adquirir todas as senhas de acesso. Agora, preso à poltrona da cabine inteligente, não via soluções de fuga. Buscando se acalmar, olhou em volta e mais uma vez deparou-se com o monitor que mostrava as imagens dos seguranças. Haviam desistido de abrir a porta. “Com certeza”, raciocinou. “Alguém com um cartão de acesso deve estar para chegar. Talvez eu tenha mais alguns minutos”, presumiu com mudança de planos. “Se não há mais retorno, irei até onde for possível nesta operação. Logo me levarão daqui sem piedade”.

 

Voltando-se para o computador, Hamilton recorre a sua ampla habilidade de programador. O que não deixava de ser um perigo. Principalmente naquelas circunstancias apreensivas de tudo ou nada. Primeiro apelou para os últimos recursos ainda possíveis e que habilmente dominava. Se o supercérebro fosse naturalmente fiel, à lógica dos demais computadores, inevitavelmente as suas propriedades quânticas sofreriam danos e somente por sorte se reconstituiriam, mas não pensou duas vezes. Iniciou, repentinamente, um programa vírus com a intenção de neutralizar o sistema de segurança. Talvez assim pudesse abrir as abotoaduras do bracelete frontal manualmente. Ainda faltavam algumas instruções quando hesitou. Percebeu que CEES-23 não obedecia a qualquer comando seu. Incrivelmente, dono da situação, operava com autonomia.

 

Hamilton ficou mais intrigado, ao perceber que mesmo não obedecendo, o computador analisava umas após outras, as equações de sua teoria. Simultaneamente, no monitor principal, eram visíveis diversas probabilidades de deslocamento temporal, passando por simulações virtuais.

 

“Certamente”, pensou entusiasta, “o sistema está ativo usando como referencia operacional os comandos de minha teoria que ainda permanece instalada. E o mais estranho é que estão sendo analisandos justamente os itens determinantes para um real deslocamento...”.

 

– Essa não! – compreendeu o que estava acontecendo.

 

– Atenção para os preparativos. – Soou a voz cibernética de CEES-23. – É iniciada a contagem regressiva. Em trinta segundos se realizará a simulação interativa, de deslocamento temporal. Os satélites de comunicação já estão ajustados. A abertura do espaço-tempo multidimensional esta em andamento. Freqüências de ondas eletromagnéticas ultracurtas serão condutoras das propriedades perceptivas da mente humana em análise.

 

Ouvindo o que dissera o computador, Hamilton teve certeza de que algo bem mais sério estava para ocorrer. Em pânico, olhando para um dos lados, visualizou, em alguns monitores, um alerta de que o sistema estava desorientado. Agindo a esmo, o computador assimilava o último programa instalado como uma instrução a cumprir.

 

– Não! não pode ser! – Exclamou assustado, ao ver numa reprodução holográfica, cenas de um cérebro humano sendo objeto de leitura digital. Passava por uma varredura de suas propriedades. – Esta é a representação virtual do meu cérebro. – Apavorou-se. – Tudo o que estou vendo, na verdade, esta ocorrendo em minha mente. Não é à toa que estas sensações estranhas tomam conta do meu corpo.

 

O jovem cientista desesperado tenta arrancar, mais uma vez, o bracelete de sua cabeça. Enlouquecido, lutava para livrar-se do seu único elo de conexão com o computador, antes que fosse tarde demais. Ferindo-se descontroladamente estava quase conseguindo quando foi derrotado.

 

– Leitura cerebral concluída. – Soou a voz eletrônica revelando sintomas de anomalia. – Faltam agora dez segundos para completar a operação. E contando: Nove, oito, sete,...

 

Os alarmes que já haviam silenciado voltaram a soar insistentemente. Paralelamente, os sinalizadores de emergência indicavam que a memória principal estava chegando ao seu limite e estava prestes a entrar em pane. Ao mesmo tempo os demais compartimentos informatizados de Aurora 14, em todos os níveis, entraram em curto provocando diversas explosões. Nos corredores, os convidados da festa do bicentenário, em pânico, não compreendiam o que estava se passando. Corriam de um lado para outro sem saber onde encontrar proteção.

 

Na sala inteligente, em meio a uma eminente catástrofe, Hamilton sofria de um transitório estado de choque mental. Sem poder reagir, apenas agonizava. Tudo acontecera muito rápido e fora de seus planos. Finalmente, em meio ao confuso contexto, percebeu vagamente o pronunciar desregulado do último dígito da contagem regressiva. Depois veio um clarão e finalmente o silêncio juntamente com o alívio de suas dores.

 

Continua: Capítulo 7 - Nas dimensões do tempo

 

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