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O VISITANTE > Capítulo - 1

Autor: Antonio Juvenil - Ano: 1995

1 - Sistema Solar SS-9

Emmet K-hii mostrava-se impaciente. Ficava de um lado para outro na pequena cabina de comando da astronave cargueira 17.000. Tinha razões de sobra para tantas preocupações. Transportava um carregamento de siderito, que certamente resultaria num significativo prejuízo à companhia que o contratara. A entrega do minério estava atrasada em duas semanas e cinco dias haronnianos. As regras de transporte eram bem claras quando diziam que o transportador ao causar prejuízos a sua unidade de serviço, pagaria pelo mesmo. "Tudo isso é uma tremenda burocracia", pensou K-hii entediado. Na verdade as regras de transporte tinham o objetivo de beneficiar as empresas garantindo-lhes a certeza do lucro constante.

Ansioso K-hii verifica outra vez os monitores de interação com o computador. Certificou-se de que ainda não apresentavam os resultados das informações que pedira. Resolveu, portanto, sentar-se mais uma vez, enquanto aguardava. Tinha consciência de que precisaria ter calma. Na tentativa de sentir-se confortável, permitiu ao seu corpo franzino, recostar-se totalmente a poltrona. Ao passo que seus olhos graúdos, desproporcionais a delicadeza de sua face jovial, percorriam a grande tela do vídeo principal a sua frente, observava uns cem números de estrelas, todas aparentemente imóveis e solitárias na escuridão do espaço. Comparava-as consigo mesmo, em suas longas e quase solitárias viagens entre o Planeta Haronn e as colônias de mineração, se não fosse pela companhia de Ectro-21, o computador navegador da astronave.

Planejado especificamente para viagens espaciais, Ectro-21 formava tanto a estrutura geral quanto o cérebro da astronave. Era um sistema de inteligência artificial bastante desenvolvido, com habilidade de simular traços de personalidade e comportamento emocional como se tivesse vida biológica fugindo ao padrão dos computadores de gerações anteriores. Juntos, ele e Emmet, já passaram por maus bocados em tantas outras viagens. Não eram raros problemas imprevistos nas distantes viagens perseguindo as mineradoras espaciais. Talvez por sorte, continuavam inteiros.

"Estamos envolvidos em mais um problema", pensou Emmet, recordando a colônia de mineração Sideral-13, de onde partiram há três dias.

A Sideral-13 estava entre as cinco colônias mais distantes do Planeta Haronn. Conforme detectava o veio de siderito no espaço, deslocava-se em sua captura e beneficiamento, deixando-o pronto para o transporte. Um grande deslocamento, feito pela colônia, enquanto K-hii estivera abordo, recebendo o minério, complicara sua trajetória de retomo. De acordo com a nova posição astronômica da Sideral-13, entre ela e Haronn, ficara uma larga zona de reserva haronniana mantida sob lei de fronteira. O que obrigaria Emmet a tomar uma rota maior, conseqüentemente, resultando num atraso significativo.

O sinal esperado pelo jovem comandante fez-se ouvir. De sobressalto, virou-se dando total atenção aos monitores de comunicação, enquanto interrogava apreensivo:

— E então computador... Quais os resultados?

— Positivos! — Disse Ectro-21 num tom aprimorado e comportando-se como se fosse o principal interessado na sua pesquisa. — Cruzando a zona de reserva SS-9, completaremos a missão a tempo. Recuperaremos o tempo perdido, além de obtermos vantagens de seis dias a nosso favor.

— E quanto a lei de fronteira? — Perguntou Emmet sem dar tempo. — Encontrou alguma forma segura de escaparmos ilesos?

— Não! Mas posso antecipar que a zona de reserva SS-9, não tem sistema de vigilância. Normalmente as micronaves guardiãs limitam suas atividades de segurança as zonas, também proibidas, próximas a Haronn.

Ouvindo com um pouco mais de calma, Emmet acha oportuno lançar seu plano ao computador. Esperava cumplicidade do mesmo. Caso contrário não haveria outra solução para o problema que se encontravam.

— Computador — disse Emmet cauteloso, reconhecendo que sua idéia era um tanto fora do comum. — Confirme as possibilidades de cruzarmos a zona de reserva SS-9 e após deixarmos seus limites, apagarmos a trajetória registrada em sua memória, substituindo-a pelo programa de um fictício curso normal.

O silêncio tomou conta do pequeno ambiente, mostrava claramente as reservas do computador quanto ao envolvimento direto no plano. Talvez pretendesse permanecer como mero cumpridor de ordens, pensava K-hii, enquanto fingia distração. Mas surpreendeu-se com a resposta obtida.

— Sim podemos agir segundo sua proposta. — Ectro-21 expressava compreensão e cooperação ao mesmo tempo em que alertava para os riscos quanto a criação da rota fictícia. — Não teremos nenhum problema desde que não haja vistoria no meu núcleo de programa ao concluirmos a missão.

— Quanto a isso, acho pouco provável, — disse K-hii, estimulando seu entendimento com o cérebro eletrônico, — Em centenas de viagens, pelo que estou informado, talvez no máximo oito ou dez astronaves cargueiras tiveram seu núcleo de programa vistoriado. Isto, porque seus comandantes pediram e justificaram a razão da necessidade da inspeção. — Emmet fez uma pausa reflexiva concluindo em seguida. — E este não será o nosso caso. Chegando na data prevista, ninguém terá motivos para isso.

— Bem... — Consentiu o computador, — você assumindo sua parte na responsabilidade, eu garanto cuidar dos programas necessários a nos deixar isentos de qualquer suspeitas. Mesmo assim, quando retornarmos ao curso normal de nossa trajetória, vou precisar de um comando seu para realizar limpeza de dados na célula principal. É bom eliminarmos o registro de qualquer arquivo que possa nos denunciar.

Era tudo que Emmet K-hii esperava ouvir. Agora de comum acordo, o computador e o seu comandante, trataram logo de projetar o novo rumo que estavam prestes a tomar. Durante as últimas análises de segurança, Emmet pôde verificar que o espaço a ser cruzado realmente não prometia riscos. De extraordinário, atravessariam um sistema planetário iluminado por uma estrela de meia idade, denominada pelo computador de Sistema Solar SS-9.

Estavam prontos para a manobra quando K-hii fez sua última recomendação, relembrando as principais medidas de segurança.

 — Devemos nos manter camuflados enquanto estivermos sob os limites da zona proibida. Nem mesmo ondas eletromagnéticas deveremos emitir em hipótese alguma. Quando menos se espera, a escuta das micronaves guardiãs estão registrando qualquer sinal. E não é nosso objetivo sermos flagrados. Não esqueça, — disse dirigindo-se à complexa parafernália eletrônica a sua volta — você também esta junto comigo, envolvido no problema.

 Um breve som, quase imperceptível, foi tudo o que o computador deixou-se perceber. Emmet o entendia, indicava que tudo estava sob segurança.

 

Continua: Capítulo 2 - Interferências

 

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