Aulas: Adquirir aulas de desenho        |        Serviços: Download
 Principal                                                                             |  Adicionar aos favoritos  |
   Desenho   |   Aulas   |   Galeria   |   Contos   |   Alunos   |   Ajuda   |   Contato
Arte Página Web

Arte

O VISITANTE > Capítulo - 2

Autor: Antonio Juvenil - Ano: 1995

2 - Interferências

A astronave cargueira 17.000 entrara no espaço do sistema solar SS-9 há quatro dias haronnianos. Durante esse tempo, percorrera 39,5% de sua extensão, o que fez Emmet K-hii julgar que em seis dias estaria fora do mesmo. E conseqüentemente, da zona proibida. Somente então, poderia respirar aliviado e em segurança. Não era sua pretensão ser surpreendido violando a lei de fronteira.

Originando-se em Haronn, logo no primeiro século de longas viagens em pesquisas pela Via Láctea, talvez a arcaica lei de fronteira fosse a mais respeitada entre outras tantas leis haronnianas. Seus infratores eram punidos de forma severa. Deveriam servir de exemplos que intimidassem outras iniciativas.

— K-hii, — Disse o computador com ar intimista — os sensores voltaram a detectar interferências em nosso sistema de comunicação, A cada interferência, em intervalos sempre menores, os sinais ficam mais fortes. É como se nossa trajetória nos conduzisse ao emissor.

Voltando-se para o monitor de comunicação e fazendo uma leitura do que detectava os sensores, Emmet percebeu o quanto se ampliara a intensidade das interferências.

Fazia pouco mais de 19 horas desde quando ocorreram as primeiras interferências. A princípio, Emmet julgara que Ectro-21 havia se enganado e provavelmente o supremo tivesse alguma micronave robô como guardiã da zona proibida. E esta, ao emitir informações, sobre trânsito ilegal, fora detectada pêlos sensores da astronave. Mas crentes que estavam sob camuflagem, além do que dissera o computador ao esclarecer que por acaso, mesmo que se uma micronave guardiã se encontrasse por ali, nem o sistema de comunicação de longo alcance que elas operavam teria potencial de transmissão àquela distância de Haronn. Emmet pensara então em outra possibilidade; a de não ser o único haronniano que violara a lei de fronteira. Possivelmente outro transportador de minério também atrevera-se a cortar caminho pela zona proibida. Por enquanto, nada era certo, Ectro-21 ficara de analisar e comprovar as suspeitas. Na expectativa de uma resposta coerente, Emmet indagou ao perceber o sinal de resposta no monitor.

— Há mais alguém na zona de reserva SS-9?

— Não! — disse o computador simulando personalidade de insegurança, para melhor expressar sua informação. — Não estou bem certo sobre o que detectei. O meu programa está limitado. Não permite que eu chegue a conclusões seguras, precisarei operar com memória autônoma.

Com olhar cinza, K-hii checa visualmente os gráficos da minúscula tela ligada direto ao núcleo cerebral do computador. Percebeu que estava operando com 85% de sua memória, "Com certeza", pensou preocupado. "Algo sério está em questão".

Curiosidade e receio tomam conta do jovem. Suspirou prolongado, e disse sem perder o equilíbrio:

— O que, de tão extraordinário, pode exigir sua autonomia operacional? Dá para antecipar algumas informações?

— O que registrei ainda é bastante superficial, mas um tanto absurdo. — Disse o computador, com reservas. — Mesmo assim, ao rever os dados, estes comprovam sua veracidade.

Ectro-21 hesitou, mas antes que Emmet iniciasse uma nova cobrança continuou:

— Pelos indícios do que temos até agora tudo leva a crer que as interferências captadas não se originam de nenhum sistema de comunicação haronniano. Volto a afirmar que serão aprofundados os estudos sobre o caso, mas pelo visto, detectamos sinais de vida inteligente num dos planetas da zona de reserva SS-9.

Embora pronunciasse com naturalidade sobre sua pseudo descoberta, Ectro-21 deixava-se perceber o quanto estava surpreendido, ao mesmo tempo exultante, pelo achado.

Olhando para a grande tela, entre os micros monitores, Emmet observava a imagem do sol alaranjado ampliando-se aos poucos, indicando sua lenta aproximação de acordo com a velocidade da nave. Em seguida, pensou nas palavras de Ectro-21, tirando conclusões questionadoras do que ele dissera descobrir. — Será possível! Vida inteligente fora de Haronn. — Balbuciou despertando do transe.

— Computador — disse sorrateiramente. — Não seria bom checar os sensores de comunicação. Em meio a tantas viagens é possível alguma anomalia técnica... — Calou desaprovando seu argumento. Precisaria de outro mais coerente.

— Não será preciso — insistiu com firmeza, o computador — Já revisei todo o sistema.

Com expressão zombeteira, Emmet procurava uma maneira de corrigir aquele equívoco. Precisaria encontrar as causas que levaram Ectro-21 a perder sua idoneidade. A princípio, talvez por curiosidade, quase cedeu as idéias de que realmente poderiam estar diante de uma grande descoberta. Mas algumas razões lhe permitiam rejeitar tal hipótese. Compreendendo aquela zona como parte do território haronniano, presumia que se realmente existisse algum planeta habitado, todos em Haronn seriam sabedores. Certamente o computador havia criado soluções ao problema, por não dispor de instrumentos suficientes para detectar a verdade.

Não era a primeira vez que computadores portadores das características de Ectro-21 deixavam sua vaidade sobrepor-se aos critérios lógicos. Quando não encontravam soluções para casos por demais complexos, se valiam de probabilidades não comprovadas.

Num ato decidido, K-hii pressionou três minúsculos botões azuis. Estava permitindo que o computador trabalhasse com sua memória autônoma. Talvez funcionando com seu potencial máximo, viria a perceber o quanto fora longe demais. Ectro-21 não atingira nem 30% de seu tempo operacional, isso lhe permitiria muitas chances de reconstituir-se do pequeno deslize. Para ajudá-lo, mais ainda, Emmet faria uma vistoria nos circuitos básicos na cabina do banco de dados principal. Usaria o micro computador auxiliar para detectar a fonte de algum problema.

Enquanto percorria o estreito corredor central, com ar preocupado, Emmet K-hii lembrava-se de histórias folclóricas sobre a existência de vida inteligente além das fronteiras haronnianas. No fundo não achava coerente que Haronn fosse o único e privilegiado planeta às condições que possibilitaram o surgimento da vida; pensamento que não era unicamente seu. Muitos amigos, também viajantes, achavam o mesmo. Alguns até diziam terem visto ou detectado sinais de alienígenas durante suas viagens, mas nunca conseguiram registrar nada em arquivo. Por isso, eram vistos como criadores de histórias fantasiosas.

A porta da cabina do principal banco de dados abriu-se automaticamente. A primeira coisa que chamou a atenção de Emmet, foi o telão do vídeo de longo alcance. Este mostrava imagens nítidas de planícies, montanhas e vegetações em grande extensão. Um monitor acoplado no telão, mostrava uma série de sinais e mapas radiográficos.

Subitamente, as imagens sofreram uma estilização adquirindo características geométricas. Quando voltaram a sua forma natural, o jovem comandante sentiu uma parcial nostalgia histórica. Tinha, a sua frente, exemplos da arquitetura antiga de Haronn; uma série de prédios como vira tantas vezes no museu das cidades antigas. Porém, as imagens que observava atentamente, mostravam uma diferença em particular entre estes prédios e os do museu. Estes apresentavam uma série de janelas; uma infinidade delas. Ao contrario dos antigos prédios haronnianos que eram totalmente fechados por causa da radiação solar.

— Veja isto, — interferiu o computador transferindo a atenção do jovem para um monitor que ficava na base do telão. — Não é extraordinário?

— Curioso! — Disse Emmet surpreso. — Não parecem haronnianos. Tem alguma coisa estranha. — Falava enquanto apontava para o monitor.

— Estes são os habitantes do planeta que detectamos — disse o computador cheio de segurança. — São quase semelhantes aos haronnianos. Se não fosse pela estrutura de seus crânios.

— Não pode ser... — Emmet manifesta inquietação. — Estes registros e estas imagens provam que você estava certo. Esclareça melhor sobre o que está ocorrendo.

Operando com memória autônoma, Ectro-21 aparentemente em nada se diferenciava, no comportamento, com alguém portador de vida biológica. Suas reações justificavam mais um estado emocional do que a conduta comum de um ser constituído por estrutura líquida sintética e metálica.

— Estamos testemunhando a existência de um planeta completamente habitado — esclareceu o computador. — São seres com inteligência bastante desenvolvida. — Hesitou, depois concluiu — quase comparável a dos haronnianos.

— Você não acha estranho, — observou K-hii, assustado. — Se tudo isso é verdade porque nossos cientistas ainda não os detectaram?

— Talvez já o tenham. — Justificou Ectro-21 maliciosamente — Por algumas razões não querem que as pessoas comuns saibam. Como prova disso, esta é uma zona mantida sob a lei de fronteira.

Por um momento Emmet caiu em si. Tinha lógica o que dissera o computador. Mas o que poderia impedir que os haronnianos soubessem da existência daquele planeta habitado, haveria algum perigo as escondidas: "Não. Isso não!" concluiu seu pensamento: "A ciência haronniana não sabia de nada. Se realmente soubessem não estariam mais esperando para colonizar este sistema solar. Uma razão para isto é o fato de Haronn aos poucos tomar-se inabitável".

O sol que iluminava o planeta Haronn aproximava-se do final de sua vida. Em pouco tempo deixaria de existir, tornando-se numa anã branca.

Enquanto se acomodava diante de um dos monitores para visualizar melhor as imagens sobre os habitantes do planeta em estudo, Emmet deixou-se imaginar como alguém que poderia levar uma chance para o futuro do seu povo. Anunciar-lhes a descoberta de um planeta similar e possivelmente tão habitável quanto Haronn. Não divagou muito, lembrando-se da lei de fronteira. Mesmo que fosse importante seu achado, não escaparia a punição. Não viveria para testemunhar a colonização do novo mundo.

Pela primeira vez, durante os seus 31 anos, Emmet julgou a lei de fronteira como um problema vital, lhe faria escolher entre calar, ou bancar o herói.

 

Continua: Capítulo 3 - O plano

 

< Anterior   ::   Principal >

Arte

Sobre arte > Veja, leia e aprenda sobre arte

Sobrearte: Layout e conteúdo criado e desenvolvido por Antonio Juvenil - Todos os direitos reservados


O conteúdo e imagens deste site são de direito e responsabilidade do seu autor. Salvo os casos em que estejam registradas

as referências  de outras fontes.