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O VISITANTE > Capítulo - 3

Autor: Antonio Juvenil - Ano: 1995

3 - O Plano

K-hii desligou a projeção holográfica. Assistia a algumas cenas de sua noiva, registradas nas últimas férias, quando estiveram juntos. Algumas sessões como aquela, eram necessárias para ajudar a vencer a distância. Serviam também, como falsa companhia, tendo em vista que não podia tocar ou sentir o perfume do belo corpo de Yaa.

Ainda com a sala de projeção as escuras, visualizando como as imagens de Yaa tomavam-se tênues, desaparecendo lentamente. Emmet volta a pensar nas descobertas feitas pelo computador sobre o planeta que dissera chamar-se Terra. Recordava, em detalhes, os adjetivos levantados por Ectro-21, para descrever os habitantes do planeta. Eram qualidades invejáveis, referindo-se a uma raça de evolução tão recente. Há menos de 5 mil anos desde a descoberta de sua escrita.

O que mais impressionava o jovem haronniano era o desenvolvimento tecnológico que os terráqueos atingiram nas últimas décadas do século XX e início do século XXI, como era designada a época em que viviam. Os dados históricos, recolhidos por Ectro-21, indicavam que estão prestes a descobrirem os caminhos do espaço longínquo. A própria complexidade da vida que levam, os farão romper as fronteiras do pequeno mundo em que habitam.

A iluminação automática, da sala de projeções fez-se clarear. A porta abria-se, K-hii decidiu ir até o núcleo cerebral da astronave. Precisava convencer o computador a tomar algumas medidas de segurança. Deveriam estudar, conhecer melhor os habitantes da terra. Se continuarem em desenvolvimento acelerado, logo poderão ser um problema contra a paz da Via Láctea. O espaço sempre é pequeno para competições.

Caminhando em passos lentos, Emmet pensava, curiosamente, numa maneira que lhe permitisse descobrir o nível intelectual dos terráqueos. Que pensamento poderia se desenvolver numa espécie com cérebros de tamanho reduzido. Com tais informações seria fácil medir o risco que ofereciam, ou até mesmo, encontrar o alvo que imobilizasse suas mentes sem que eles mesmos percebessem.

Ectro-21, reflexivo, como se reconhecesse a importância dos acontecimentos, não dava tempo a si mesmo. Recolhia o máximo de dados sobre a Terra e seus habitantes. Estava exatamente concluindo uma análise de segurança, comprovando que não se deixara detectar, enquanto interferia na memória dos computadores arquivos da Terra, quando K-hii entra na intimidade de seu núcleo cerebral.

— Computador — disse K-hii interesseiro, — Eu gostaria que tomássemos algumas providências em relação aos terráqueos. — Demonstrando possuir um plano em mente continuou — há possibilidades de fazermos contatos direto com algum terráqueo sem o risco de sermos detectados?

O silêncio vigorou por alguns segundos. Imagens passavam com rapidez nas cinco telas de vídeo distribuídas no corpo metálico protetor do núcleo cerebral.

Também denominado de cérebro do computador, o núcleo cerebral tinha a função de obedecer ao comando de K-hii controlando os diversos compartimentos da astronave. Inclusive o de carga que era o maior deles, ocupando 75% do grande dirigível. O cérebro localizava-se na parte central do andar superior. Em volta dele situavam-se os compartimentos usados por K-hii. Normalmente, a entrada naquele espaço íntimo, só acontecia em situações delicadas, quando decisões de elevada importância deveriam ser tomadas.

Sentando-se na única poltrona endereçada a seu uso, Emmet espera o que dirá o computador a sua indagação.

Ruídos estranhos diminuem a intensidade, enquanto as imagens das telas normalizam sua projeção.

— E então computador... o que tem a dizer?

Não há possibilidades de contatos sem nos detectarem — assegurou o cérebro.

— Como foi que os sensores colheram tantas informações sem se deixarem descobrir? — disse K-hii tirando proveito da situação — não podemos agir da mesma maneira?

— Não — retorquiu Ectro-21, e continuou com o objetivo de esclarecer como havia procedido. — Quando os sensores de comunicação detectaram interferências de origem terrestre, naquele momento não emitíamos qualquer onda eletromagnética. Operávamos apenas com o sistema de rastreamento de segurança. Caso contrário, os terráqueos também já teriam nos detectado com seus possantes radiotelescópios. — Completando o que tinha pra dizer, acrescentou o computador. — E nós os detectamos por acaso, nossa freqüência perceptiva entrou em sintonia automática com o sistema de comunicação via satélite usado na terra para longa distância. Eles emitem uma mensagem permanente em ondas curtas na tentativa de descobrirem vida inteligente em algum ponto do espaço longínquo.

Desconcertado, Emmet K-hii recolheu-se em pensamentos. Almejava encontrar um meio para cumprir sua pretensão. "Deve haver algum jeito de fazer contato com um terráqueo". Pensou. — Ei, é isso! — Exultou com voz eloqüente. — Por que não usamos o sistema de... de...

Levantou-se apressado. Chegou bem perto dos painéis sensíveis do cérebro e proferiu convincente:

— Por que não utilizamos sistema de comunicação mental. — Disse apontando para uma cabina pouco usada nas viagens. As grandes distâncias impediam o uso constante do comunicador mental. — É um bom recurso. Assim não há como nos detectarem.

— Idéia não aceita — alertou o computador — para este tipo de comunicação o terráqueo também precisaria de um sistema eletrônico similar.

— Não há possibilidades que permitam adaptar aos meios de comunicação da Terra. — K-hii estava esperançoso. Insistiu num tom de ordem — reveja as probabilidades arquivadas.

Sem hesitar, mesmo descrente na possibilidade de uma operação de contato como fora sugerido por K-hii, o computador obedeceu. Sons estranhos voltaram a tomar conta do ambiente. Era como se Ectro-21 travasse uma luta contra sua própria lógica, fazendo a leitura de suas entranhas cibernéticas pesquisando algum arquivo que para ele era inexistente ou que, por excesso de informação, possa ter sido gravado sem identificação. Mostrava também, com isso, o seu interesse em poder conhecer na intimidade, a mente de um terráqueo.

— Encontrei! — a entonação fonética do computador confundia-se com a voz de qualquer haronniano. —Tem uma possibilidade. E sem qualquer risco de sermos percebidos.

Emmet estava frontal ao foco que permitia ao computador perceber todas as suas reações emocionais. Por um momento, julgou ter sido retirado dele a energia que gerou a idéia que solucionaria o problema.

— Quero os detalhes da operação — pediu eufórico.

— É bastante simples — iniciou o cérebro eletrônico com ar de grandeza. — Apesar dos terráqueos utilizarem um sistema de comunicação digital, bastante avançado, baseado em microprocessadores, nos recorreremos ao uso de um dos meios de comunicação ainda bastante comum entre eles, embora sejam antigos. São similares ao comunicador mental, diferenciando-se apenas por serem transmissores de ondas sonoras. Chamam-se telefone. Faremos uso, por tanto, a recursos sonoros para o êxito do que queremos.

— Isso não poderá expor nossa presença e localização. — Precaveu K-hii.

— Não! — Garantiu o cérebro — Você usará o capacete comunicador. Através dele, retirará e armazenará em sua memória as propriedades mentais do terráqueo, tudo que ele sabe, pensa ou imagina. O processo ocorrerá numa fração de segundos, sem que o próprio terráqueo tome consciência dos acontecimentos.

— Pode esclarecer melhor sobre a transmissão do conteúdo mental do terráqueo — pediu Emmet K-hii com olhar um tanto curioso — Como será captado na prática, seu pensamento?

— O aparelho telefônico usado pêlos terráqueos tem um código de contato. Ao enviarmos um desses códigos via satélite, há grande probabilidade de acionar um destes aparelhos. E como mostra a imagem da tela M-T2, o terráqueo sempre aproxima o aparelho de sua fonte auditiva, para ouvir a mensagem de seu emissor. Será nesse exato momento, que chegará até ele um som hipnótico. O mesmo usado em criminosos haronnianos quando estes não querem confessar seus crimes. Com reação semelhante, o cérebro do terráqueo sofrerá um relaxamento, abrindo-se para os sensores do capacete comunicador, que em operação normal, absorverá o conteúdo cerebral do terráqueo num instante.

Emmet estava atento as explicações. O computador encontrara uma maneira de realizar seu plano. Mas por um momento, transitou em sua mente, a idéia de que também poderia estar à beira de uma experiência perigosa. O computador tinha um cérebro eletrônico, até que ponto, poderia interferir ou mesmo entender sobre a intimidade de um cérebro biológico. Confiava em Ectro-21, isso era inegável. Ainda mais agora que eslava operando com todo o seu potencial. Mas não poderia esquecer que sua mente também fará parte da operação.

— Qual é a probabilidade de erros? — perguntou K-hii, buscando proteção.

— Nenhuma! — Disse o computador mostrando segurança, deixando-se perceber o quanto estava conhecendo sobre o modo de vida dos habitantes da Terra.

Sem dizer uma palavra, Emmet fica pensativo por alguns instantes. A comunicação mental entre haronnianos era normal, mas com um alienígena poderia trazer surpresas. "Nunca mais voltarei a cruzar o sistema solar SS-9" pensou repentinamente "tenho que arriscar. Não haverá outra oportunidade".

— Estou pronto para a operação. — Disse Emmet num ato de decisão voluntária.

— O procedimento ocorrerá em meia hora — afirmou o cérebro eletrônico. — Nesse meio tempo precisarei configurar nosso sistema de comunicação para o contato.

— Quando concluir todos os ajustes é só chamar. — Disse K-hii, deixando o núcleo cerebral — estarei na ponte de comando.

 

Continua: Capítulo 4 - O Contato

 

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